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Experimentalista

Um blog onde exponho publicamente as pipas de massa que já gastei, dividindo-as em "bem empregues" e "desgostos"

07
Fev17

Crianças com o mundo ás costas

Sarah

Acabo de assinar a petição contra o peso das mochilas dos nossos miúdos. Este assunto é-me particularmente sensível pois também eu fui uma "tartaruga da escola". Também eu, pousava a mochila a meio do caminho pois magoava-me nos ombros e eu sempre tive mochilas boas. Também eu fazia todos os dias um tetris matinal de livros, estojo, cadernos e lanche, para conseguir encaixar tudo dentro da mochila. Também eu chegava a levar o dossier ou alguns cadernos mais pesados nos braços, para não pesar tanto nas costas. Os piores livros eram sempre os de ciências, seguidos dos de português, autênticas bíblias que tínhamos que carregar o ano todo. 

Desengane-se quem pensa que isto é apenas relacionado com o "simples" peso das mochilas, pois este assunto tem todo um iceberg abaixo da superfície:

-O lobby dos livros: não é novidade nenhuma que todos os anos, ou muito perto disso, os manuais escolares são revistos, modificados e alterados, logo, a utilização dos livros do ano anterior está fora de causa. E a culpa é de quem? De quem não regula, de quem recebe os envelopes por baixo da mesa e de quem acusa os que expõe a situação de "complô contra a Porto Editora e a Areal", os grandes masters do negócio. Há mesmo algumas escolas que proíbem a utilização dos manuais se não forem novos com o argumento de que "há sempre alterações de ano para ano", ou seja, vão os paizinhos desembolsar cerca de 250€, por filhos, todos os anos lectivos;

 

-O lobby dos trabalhos de casa: um miúdo "normal" de hoje tem uma média de 10h horas fora de casa. Os adultos trabalham pelo menos 8h e ai de quem os mande trazer trabalho para casa. Mas os miúdos trazem. Trabalhos esses que vão ter que fazer entre a ida ao karaté ou à dança, entre a natação e as aulas de piano. E agora vocês dizem "ah mas isso é culpa dos pais!". Não, isto é culpa de um modelo de sociedade que não dos deixa ser pais, que reivindica que o bom trabalhador  é o que tem horas para entrar mas não tem horas para sair, que o bom trabalhador nem sequer tem filhos! Já viram que estou, por causa de mochilas, quase a falar de licenças de maternidades e direitos de apoio à família!? Se os pais não têm tempo para estar com os filhos, alguém tem que ficar com eles. Que ao menos os miúdos aprendam alguma coisa que gostam...

 

-O lobby do programa de ensino português: quem se lembra do que deu no 7º ano? Ou no 8º? Ou mesmo na 4ª classe? Eu não me lembro, desculpem-me. "Antigamente", no tempo dos pais e avós, os miúdos podiam não ser expostos a tantos conteúdos mas ao menos saíam da escola a sabê-los de cor e salteados. Agora, tudo é injectado na cabeça das crianças como se faz ás vacas para darem mais leite: o que conta é o resultado daquele teste. Se aprendeste ou decoras-te isso já é problema teu. Não concordo com o sistema que temos, não concordo com a especificação do ramo de estudo (ciências, humanidades, economia e artes) logo a partir do 10º ano e não concordo que as crianças sejam estimuladas para o ensino "a hormonas" e não a "pasto", que é como quem diz, o ensino com tempo que fomenta a aprendizagem e não o acto de decorar. Nisto os americanos estão à frente: os alunos fazem o seu plano de estudos, podendo ter matemática e literatura, ciências e arte.

 

Para mim, como podem ver, isto das mochilas ultrapassa em larga escala o objecto de transporte. Claro que o simplistas dirão sempre "então e as mochilas com rodinhas? Então e os cacifos?". Nada viáveis. Eu também já podia ter tido mochilas com rodinhas mas, quando no 5º ano, medimos 1,65, fica difícil andar a arrastar uma coisa que não nos chega aos joelhos, ficaria marreca à mesma. E os cacifos.....eu sempre tive aulas de "manhã" e mesmo que fizesse os trabalhos na escola, eu tinha que estudar para o dia seguinte, logo, os livros vinham à mesma comigo para casa. Além disso, eram fácil arrombar um cacifo e ficar-se sem um livro....

 

Se concordam, se não concordam mas têm filhos ou menos se apenas gostam de assinar coisas......deixo-vos a petição. Já a assinei e não poderia deixar de a partilhar.

Obrigada

Sarah