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Experimentalista

Um blog onde exponho publicamente as pipas de massa que já gastei, dividindo-as em "bem empregues" e "desgostos"

07
Jul16

Eu não tenho coração para isto.....

Sarah

O dia de ontem passou demasiado rápido. Sinto-me como quando apanhamos uma valente bebedeira na festa de outra pessoa: sabemos que aconteceram montes de coisas, que foi tudo super emotivo e, ainda assim, metade passou-te ao lado e agora tens apenas flashes na tua memória. 

Às 13h00 soube que a minha menina estava a caminho. Que as contracções estavam de minuto a minuto mas ela não queria descer nem a dilatação se fazia. "Nós vamos dando notícias", era esta a promessa e o placebo que procurava tranquilizar quem ansiosamente a espera há 9 meses.....há 13 anos. 

Às 18h00 saio esbaforida para conseguir chegar ao local do jogo da Selecção a tempo. E ainda tínhamos que comprar o jantar, e fazê-lo e eu vou masé lavar o carro que isto de limpar coisas acalma-me.

E eles não dizem nada.

Apito inicial.

Jogo de merda. Os meus rapazes não sabem o que fazer com a bola e eu não sei o que fazer com a perna direita que incessantemente treme. Espero que a minha menina esteja a fazer um jogo melhor, o jogo da vida dela.

O jogo acaba. Os meu rapazes ganham aos 93 minutos. Foi limpo, prático, eficiente, o jogo que esperei desde o início do europeu e só ontem pude receber. 

Começa agora outro jogo, a maior das prioridades. Tenho que lá estar, eu não posso ficar em casa! 

É meia noite. Entro nas urgências, pergunto baixinho como posso ir ter ao único sítio onde quero estar. Subo, 1ºandar, 2 3......uma sala de espera vazia. Na sala ao lado, uma televisão berra o comentário ao jogo enquanto uma enfermeira enche um termos com café.

É meia noite e meia. Lá fora troveja. É noite de Santa Bárbara e eu sem saber nada da Joana. Já se passaram tantas hora, porquê que ela não nasce! 

"Vamos para a cesariana". Raios e coriscos e todos os trovões lá fora! Aqui não há lugar para o safoda, aqui não se pode foder nada!! Peço notícias à jovem enfermeira de bata azul e olhos grandes, sentada por detrás de uma imensa secretária com demasiados papéis. "A doutora está com ela. Aguarde só um bocadinho sim?".

Nestas altura, a unidade temporal "bocadinho" é equivalente ao tempo decorrido entre os organismos unicelulares ao produto final da espécie. Rezo, peço, faço as minhas chamadas directas aos santos de minha devoção. 

Um choro. Um choro pequenino, um choro de gente acabada de nascer mas que já sabe reclamar. O choro está mais forte! Bons pulmões. Será a minha Joana? 

No telefone cai uma mensagem. "Habemus Joana" e solto uma bafurada de fumo branco! Era ela que chorava, sei-o agora. E a mãe? Ainda no bloco. Algo não correu bem mas temos as duas ainda deste lado. 

Espero. Não passa ninguém. Saem os dois cirurgiões que vi entrar. Vão em passada lenta. Vão dormir. It was just another day in the office. Another day, another baby. E eu gastando as solas e o chão, sozinha, já cansada de todas as cadeiras, puffs e sofás. 

O meu irmão,ainda de bata, olhos tão vermelhos. Não correu bem. Ela não descia. Nasceu e não respirava. O meu irmão ainda chorava e o meu irmão não chora! Mas está bem, é linda, tão grande para uma menina! Grande como eu fui! 

"Vai para casa, não te vão deixar vê-la. desculpa. Obrigado". 

Caramba. Podem passar 60 anos por este dia e aquela sala de espera, a roupa que tinha vestida, a cor das paredes em "verde equipamento da selecção que está na final!", o meu irmão de olhos vermelhos, o choro da minha menina. Podem passar 60 anos que para mim, terá sido tudo apenas ontem. 

Bem vinda meu amor. Ontem, fomos 11 milhões e um bebé. 

 

Sarah

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