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Experimentalista

Um blog onde exponho publicamente as pipas de massa que já gastei, dividindo-as em "bem empregues" e "desgostos"

23
Jan17

Experimentalista Viu: Silêncio de Martin Scorsese

Sarah

Era um filme que eu tinha que ver, no cinema, no grande ecrã, tinha que ser assim. E assim foi na sexta-feira passada, peguei no Querido e fomos ao cinema, com direito a sala vip e tudo. E foi aqui que a coisa descambou, como passarei a explicar.

Querido expectador: Nunca ver os filmes, ao fim da semana, com muitos dias de cansaço pelo meio, numa sala com cadeirões confortáveis, reclináveis, com plataformas para os pezinhos, muito menos, se for um filme sem banda sonora, sobre fé e religião. Já estão a ver o que aconteceu não é? Eu, a marcar golos de cabeça, logo a partir do meio do filme. Perdi assim toda a riqueza e magnificência do último filme do Mestre Scorsese, por minha culpa, minha tão grande culpa (viram o que fiz aqui?).Contudo, sinto que posso falar deste filme:

Sinopse:

Dois padres jesuítas portugueses, no século XVII, Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe, viajam até o Japão em uma época onde o catolicismo foi banido, assim como quase todo o contacto externo. À procura do mentor deles, o Padre Ferreira, os jesuítas enfrentam a violência e perseguição de um governo que deseja expurgar todas as influências externas.

 

O filme começa de uma forma fortíssima, reforçando a principal ideia que todos os filmes nos passam do japoneses: são uns cabrões maus como as cobras. Juro que não há filme sobre japoneses, principalmente quando vistos pelo olho ocidental, que os pinte como boa gente, por vezes, nem humanos parecem! E este filme volta a reforçar essa ideia, sendo que todos os factos relatados são reais, resultantes de algumas cartas de jesuítas que sobreviveram à purga japonesa.

Scorsese sabia muito bem como queria filmar este épico religioso e como queria que ele se chamasse: Silêncio. Por isto não temos praticamente banda sonora no filme, em contraponto ao Lobo de WallStreet (brilhante!) onde estamos o filme todo em ácidos. Nesta obra o Silêncio impera e, dormindo ou não, não conseguimos ser-lhe indiferentes: é de uma crueza dolorosa, nada foi poupado mas, ao mesmo tempo, pelos cenários em que foi filmado, pela pobreza dos cristãos japoneses e, acima de tudo, pela brilhante interpretação do Andrew Garfield, este filme comove-nos até ao nosso núcleo. 

É difícil um cristão, criado e crente nessa fé, ver este filme. Penso que seja o mesmo para um judeu ver um filme do Holocausto. A purga japonesa foi curta e grossa: torturavam famílias inteiras, novos e velhos. Pediam que negassem o seu Deus e que sobre ele cometessem pecados. Queimam santos e objectos religiosos, tudo porque, aos olhos do japoneses, a evangelização feita pelos jesuítas era uma ofensa directa a Buda, o deus deles, ao estilo de "o Deus ocidental é melhor que o Deus Oriental". Daí a maldade para com o japoneses e jesuítas cristãos. 

Mas, verdade seja dita em relação aos jesuítas: é preciso muita lata para ir aos países dos outros impor uma fé. Pois se neste filme nos sentimos tremendamente magoados e sensíveis pelo que vemos, a história diz-nos que os jesuítas também fizeram das suas, principalmente, na América do sul, com os índios brasileiros. 

Mas voltando ao filme, a minha única recomendação é que o vejam: pelo Liam Neeson por ser o Liam Neeson, pelo Andrew Garfield que o miúdo é tão mas tão bom e vai ainda dar cartas em Hollywood, pela lição de história da religião e dos povos que temos em 2h30 de filme e, acima de tudo, pela beleza deste filme. A culpa judaico-cristã está ali exposta, o amor ao Cristo na cruz e ao sacrifício pelo bem comum, a força disto que é a fé....um fenómeno que não se explica mas pela qual já morreram milhares e sabemos lá nós, quantos mais ainda vão morrer. A trama é brilhante, o fim então surpreendente e a luta interna do Padre Rodrigues podia ser a de qualquer um de nós, de um sacrifício que sentimos na pele.

É um filme lindissimo, brilhante, é um Scorsese.

 Sarah

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