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Experimentalista

Um blog onde exponho publicamente as pipas de massa que já gastei, dividindo-as em "bem empregues" e "desgostos"

16
Jan17

O português existe à mesa

Sarah

Não sei quanto a vocês mas, se são portugueses, da terra de D. Afonso Henriques - o atirador de namorados da mãe pela janela, e se foram criados numa casa portuguesa, há uma coisa que todos temos em comum: o intrínseco, sobrenatural, amor à comida. 

Os portugueses, se assim o são verdadeiramente, relacionam todo e qualquer momento de vida social e/ou privada com a comida: à mesa, na rua, no boteco da esquina, na roulotte depois do jogo ou do after, no restaurante mais In ou no recanto mais duvidoso, na casa da mãe ou da avó que só vemos duas vezes por ano.

As famílias portuguesas não fazem encontros para se verem, apenas e só. As famílias portuguesas encontram-se para comer, com o pretexto de "olha e que tal um almoço de família no próximo fim-de-semana?". Ou então "tu daqui a uma semana fazes anos, onde vai ser o jantar?". Em Portugal somos assim, associamos a comida aos bons momentos, temos inclusivamente o standard de como deve ser a comida de cada evento: um casamento tem que ter comida farta-brutos ou "vimos de lá cheios de fominha"; um aniversários, de adultos ou crianças, tem que ter mais do que um bolo e croquetes, muitos croquetes; um almoço para a sogra tem que ser feito com uma variedades de pratos maior do que a cartaz de pizzas da Telepizza, contudo, nunca arriscar e cozinhar uma coisa que ela faz muito bem, ou estamos sujeitos a atravessar um deserto de escrutínio à lá Master Chef; e até com a comida da mãe, quando arriscamos uma das especialidades da progenitora, se a coisa correr mesmo muito bem, ousamos dizer algo como "está nos genes".

E é isso mesmo, aos portugueses, a comida é-nos cozinhada nos genes, ao mesmo tempo que nós mesmos estamos ainda no forno. 

E o mais engraçado é que temos uma amostra de país em termos de território mas, a nível gastronómico, damos 10-0 a grandes países como os Estados Unidos ou a Austrália. Não digo que a comida deles não seja relevante ou pouco variada mas, em mais lado nenhum, eu vejo gente a trucidar um porco como em terras de Sertório e Viriato! Nós somos o equivalente a piranhas perante qualquer coisa que mexa, no que ao porco diz respeito, muito por culpa do percurso histórico da própria nação, já que o gado bovino era mais caro de criar e demorava mais tempo a dar alimento. Enquanto o porco, se for preciso, comemos com duas semanas de vida e ainda lhe chamamos petisco. Uns autênticos animais. Apenas um alimento em Portugal consegue ser mais perseguido do que o porco: O bacalhau.

Dizem que há 1001 maneiras de cozinhar bacalhau mas eu aposto que, procurando bem, encontramos mais meia dúzia delas, principalmente, se formos uma família de classe média, com 3 filhos e um dos pais desempregados. O bom do bacalhau é isto mesmo: mata a gula do rico mas tira a barriga de miséria dos pobres. É o nosso arroz com feijão, pelo que rende depois de cozido e pelo sabor que deixa na água que pode dar uma sopa, enganando a fome e os sentidos.

E do Alto Minho com os seu enchidos e comidas de puxar carroça, vimos aos trambolhões pelo país abaixo e apenas conseguimos ficar mais bem comidos e mais bem bebidos. Do rancho minhoto partimos para o folar de carne à transmontana e a broa de milho branco. Partimos para os peixes assados da Nazaré mas sem nunca fugir às tripas portistas ou ao bessame de couve migada com carne. E a sul a desgraça continua, com as migas de pão alentejano com entrecosto frito, coisinha para ser servida logo antes de uma encharcada com ameixas de Elvas. Quando por fim já nos sentimos no limiar da resistência humana e esperamos o sossego do tempo quente algarvio, somos confrontados com os choquinhos à algarvia ou uma travessa de marisco da costa, de fazer inveja ás lontras do Oceanário, elas mesmo criadas a camarão.

E o cheiro da comida da mãe ou da avó. As saudades de ver o forno a ser preparado para cozer pão ou de poder andar na cozinha a importunar a vida de quem nos ia fazer o almoço, pedindo, com olhinhos de Gato das Botas "deixas-me provar? Só um bocadinho!"

Portugal é isto, a boa e velha saudade associada à barriga cheia de comida boa, caseira ou gourmet, com a família ou os amigos, ou até mesmo, na intimidade do tu+eu+um único talher. Um português não sai de casa por menos que um café e um pastel de nata. E estas duas coisas são do que mais sentimos falta quando estamos fora do nosso país, da nossa casa: comer em Portugal não é apenas alimentar o corpo mas matar a fome que vem de dentro, que vem do coração.

 

 

Sarah