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Experimentalista

Um blog onde exponho publicamente as pipas de massa que já gastei, dividindo-as em "bem empregues" e "desgostos"

20
Dez16

Os natais lá de casa

Sarah

Por mais estranho que isto possa soar, eu mal me lembro da minha infância. É tudo um emaranhado de memórias e recordações, sempre pedaços soltos, espécies de nuvens em sépia onde apareço eu e a minha família. Contudo, a maioria dessas memórias é dedicada ao natal e aos momentos que se partilhavam nessas alturas. Destes momentos lembro-me das árvores de natal que a minha mãe fazia, com pinheiros verdadeiros e que picavam como tudo mas para os quais eu adorava ficar a olhar durante horas, como se fosse um gato. 

Outra coisa que também não esqueço é o cheiro. A partir de dia 23 a casa cheirava toda a natal, que é como quem diz, a canela e mel, a limão fervido com leite, ou a sonhos acabados de fritar. Nestes dias sabia sempre melhor estar em casa, estar naquela casa. Com os anos muita coisa se perdeu, principalmente, a tradição dos presentes. Parece que naquela altura a fartura era muito menos mas havia mais de tudo: mais papel de embrulho pelo chão, mais laços de fita, mais caixas e caixotes, mais partilhas. Não sei se era por ser miúda mas a verdade é que naquela altura o natal era a altura perfeita do ano, tudo estava certo, tudo estava bem.

Como já devem ter percebido, a maioria das tradições de natal lá por casa estavam relacionadas com a comida, em doses industriais! Não que houvesse fome no resto do ano mas, para aquela noite, era feito um esforço extra, aquela extra mile de calorias e doces e coisas boas que, se podem resumir em:

 

Aletria, arroz doce, formigos (doce tipicamente minhoto), rabanadas, sonhos de abóbora, sonhos simples, molotof com doce de ovos, bolo rei, tronco de natal, coscorões (a minha perdição) e toda uma tábua de queijos pornográfica, dos macios e suaves, aos que fazem concorrência a um saco de ginástica fechado durante um mês. 

 

E tudo isto, sempre organizado pela minha mãe. Quer pudesse ou não, ela dava sempre aquele 1% a mais do que as outras pessoas, sempre teve uma maneira para fazer tudo e, por norma, essa maneira incluía a frase "tem que ficar perfeito! Não é bom, é perfeito!". Este ano as forças são menos e pela primeira vez, ouvi a minha mãe dizer "olha acaba aí tu isso que eu já não me lembro muito bem como se faz". Isto para mim foi como ouvir um louceiro a cair ao chão, o ruído dentro de mim foi igual. É que a minha mãe nunca se esquece de nada e muito menos o assumiria. Ouvi-la dizer que já não se lembra muito bem de algo que fez a vida toda é como ver o Stallone a olhar para um saco de boxe sem saber onde lhe bater, e isso custou-me mesmo muito.

Quanto À noite de Natal, já sei que será barulhenta, cheia de comida e cheiros da infância, com as pessoas a falarem umas por cima das outras e este ano com duas novas aquisições: o Querido e a nenuca-gorda-com-bochechas-até-ao-pescoço. Temos portanto, Menina Jesus e Rei Mago!

 

E por aí? Como são as vossas Consoadas (adoro esta palavra!).

 

 Esta é uma foto dos coscorões: Doce tipicamente minhoto que leva pão, mel, raspa de limão, leite e frutos secos.  Antigamente, nas casas pobres, cozer os pedaços de pão com um pouco de mel já era um luxo, agora com os frutos secos, está um luxo mesmo que os pinhões devem andar a ser lambidos pelo Papa antes de serem embalados!

 

 

Sarah