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Experimentalista

Um blog onde exponho publicamente as pipas de massa que já gastei, dividindo-as em "bem empregues" e "desgostos"

05
Jul16

Tenho medo de ser Mãe

Sarah

Da primeira vez que disse isto à minha mãe a senhora ia tendo um ataque cardíaco, uma sincope e um principio de AVC. Não tem cabimento, não se entende, "nem digas isso em voz alta rapariga!". Se já me sentia mal por assim pensar, então agora, sinto-me todo um atentado como a feminilidade, as feministas, os úteros férteis que por aí andam. 

À pergunta "então e porquê esse medo?" A resposta foi simples: tenho medo de não ser capaz. 

O ano passado, por iniciativa já que nenhum profissional de saúde até então se tinha preocupado em esclarecer-me, perguntei se o meu hipotiroidismo me poderia dar problemas um dia quando quisesse ter filhos. Calma e friamente a médica disse-me que sim, menos do que os que daria se fosse hipertiroidismo, mas ainda assim, o risco de aborto no primeiro trimestre ou de malformações do sistema nervoso estão presentes. Muito presentes. Posto isto, decidir ter um bebé não é apenas e só uma decisão, mas uma epopeia médica, um balanço milimétrico entre as várias especialidades e um desassossego que já ninguém me tira. 

A juntar a isto, preocupa-me a minha imagem. Quão fútil serei eu por dizer que não anseio um grande barrigão, as pernas inchadas, o tornar-me uma incubadora humana? Serei a única que assim pensa? Como ainda hoje comentei no blog da M.J., se o meu bebé viesse numa cestinha de Paris eu estaria perfeitamente feliz! Tenho medo do parto, de não ser capaz, de me tornar mais um relato de um parto terrível, doloroso, cheio de efeitos secundários. Um daqueles partos como os da minha mãe que ouviu coisas como "para o fazeres não gritaste tu!" (da parte da sua parteira) ou ver-me exposta a uma turma de estagiários que, hà vez, querem examinar o MEU cérvix, o MEU corpo, sem a MINHA autorização. 

Tenho medo. Tenho medo de ver o meu bebé sair de mim e ao invés de amor e alegria exacerbada sentir que isto não é para mim, ou pior, não sentir nada. Tenho medo de não ter para a disponibilidade que um ser tão pequeno e frágil nos pede. Tenho medo de quando o meu bebé chorar desalmadamente durante horas a fio eu não me consiga manter serena e maternal e sinta que isto do ser mãe, não é para mim. Tenho, acima de tudo, medo de não criar um ser humano feliz, realizado, independente e muito muito amado. Sei que aceitarei do meu filho o que ele tiver para me dar mas e se, como ouvi de uma amiga uma vez , "ele não sorria para mim. Não procurava o meu colo e tirava a minha mão do seu rosto quando lhe fazia um carinho. Precisou de um ano para me pedir colo e eu precisei de um ano para sentir que o meu bebé me amava". 

Caramba, durante séculos venderam-nos a maternidade como objectivo de vida, realização total de uma mulher, objectivo pelo qual fomos paridas. Que uma mãe é plácida e terna e que do meu filho, até o seu cócó é sagrado! Que devemos parir caladas e se doer dar de mamar, aguentamos também caladas. Quão egoísta serei eu por dizer que, para já, eu não seria capaz de ser mãe de ninguém?

E apesar de tudo, com todos estes medos e queixumes, se hoje um médico me dissesse que não poderia ser mãe, ficaria completamente devastada. Mais alguém me entende?

 

 

Sarah

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