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Experimentalista

Um guia, uma ideia, uma sugestão, ou apenas um sítio onde vir dar um passeio

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Qui | 13.07.17

Erro médico: a confiança cega e o direito à contestação

Sarah

Ando há quase um ano para escrever este post. Já pensei que nunca o faria, já me questionei sobre a sua relevância, se poderia ajudar alguém, se poderia dar força a alguém para contestar uma opinião médica. 

Atenção: a última coisa que pretendo com este texto é partir para uma guerra médica com os profissionais de saúde e com o seu imprescindível papel na sociedade! Contudo, a crença cega que temos na opinião médica e no seu diagnóstico pode causar-nos problemas, desde a auto-estima, aos casos mais graves, onde a morte é o desfecho.

No meu caso, tudo começou com uma consulta de rotina:

Procurei uma médica Ginecologista num hospital privado da grande Lisboa (local de referência, de onde apenas tenho a dizer bem). Face à indisponibilidade da médica que queria, decidi ir a outra que tinha agenda livre já dali a 3 dias e, sinceramente, para  o que ia ali fazer, apenas precisava de uma médica que me deixasse confiante e me tratasse bem. Não consegui nada disto.

Chego à consulta e sou recebida por uma médica já perto dos 60 anos, confiante, despachada, que me fez as perguntas da praxe. Passámos ao exame, tudo sem grandes problemas fora a situação que ali me tinha levado e a médica decide fazer uma ecografia apenas para ver se havia alguma anormalidade. O que se deu foi isto:

-Olhe que giro! Tem aqui uns "olhinhos de chinês"

-Como?

-Sim sim! Não vê ali, aquelas duas linhas? É um cepto uterino. Pequenino, mas é um cepto.

 

A partir deste momento deixe de ouvir o que fosse e apenas foquei no "cepto uterino". No meu parco conhecimento da anatomia humana, são poucos os sítios onde temos um cepto e o útero não é certamente, um desses sítios! No fim da consulta, estava eu meia apática, a médica pergunta-me se os horários da consulta naquele hospital me são conveniente. Disse que sim, nada demais, e é quando ela me sugere que eu passe a ser acompanhada por ela na SUA clínica privada, adivinhem, que trata A INFERTILIDADE. Se eu já estava apática, agora, só queria sair dali para vomitar. Atenção, eu nem sou hipocondríaca, paranóica, nada, mas não se fala assim de fertilidade a uma rapariga de 28 anos! Não se coloca assim uma hipótese destas, simplesmente não se faz! Disse-lhe que sim, que ia pensar nisso e saí dali. 

Pago a consulta e a primeira coisa que faço é, como seria de esperar, ir ao Google:

 

 

Útero septado: a cavidade interna do útero é dividida por uma parede, chamada septo. O septo pode ir só até metade do caminho ou chegar até o colo do útero.

Ou seja (e isto disse-me ela durante a consulta) o útero está dividido ao meio mas "não se preocupe, que os bebés são uns espertalhões e adaptam-se ao espaço que têm". 

Como já disser, eu tinha 28 anos e ter filhos não estava nem está nos meus planos imediatos, não quero ter filhos amanhã, mas quero ter filhos! Tenho pelo menos o direito de querer ter filhos e aquela mulher que eu nunca vi mais gorda pinta-me um cenário de dificuldades, de cirurgia para remoção do cepto, de pelo menos um ano de espera após a cirurgia e mais um sem fim de possibilidades, colocadas por mim. 

Isto não podia ficar assim, eu não me podia entregar a este cenário sem luta e assim, marquei mais uma consulta, com outra médica, esta recomendada por uma familiar minha. Pedi urgência e na semana seguinte tinha a consulta marcada e se eu achava que tudo na consulta anterior tinha sido su-rre-al então esta nova médica só o veio confirmar. Ouvi coisas do género:

-Mas quem é essa senhora? É médica? Aqui? 

-Mas qual cepto? Isso não se vê numa ecografia! Você tem dores, períodos intensos, falta de períodos!?

-Essa pessoa é quem??

Fez mais uma eco e diz que por mais que tentasse, nunca veria ali cepto nenhum! Marca-me um exame com um médico da sua confiança, colegas desde a faculdade e diz que se eu tiver o que for, que aquele exame tira as dúvidas todas. 

Mais 15 dias e vou fazer o exame. Estava nervosa, não sabia o que ia fazer mas levava uma carta de recomendação. Deitei-me na marquesa e fui preparada por uma miúda que também não teria 30 anos e que, quando leu o motivo de eu estar ali, me olhou de uma forma ternurenta mas com uma imensa pena: é isto que as mulheres inférteis ou com dificuldades em engravidar sentem? Foi duro mas não a julgo...ninguém quer um diagnóstico iminente de infertilidade aos 28 anos...

Entra o médico, um senhor bem posto, confiante, um tipo que se vê que há muitos anos que faz o que faz: 

-Minha querida, você, a única coisa que tem, é um útero, dois ovários e um dos ovários com dois óvulos maduros por isso eu tinha cuidado!

E lança-me um sorriso enternecedor! Não sei como não chorei caramba! Estava tudo bem, tudo! O útero tinha as medidas todas perfeitas, os ovários também, e para bónus tinha dois óvulos maduros por isso valha-nos Sta. Pílula das aflitas. Perdi 50 kg com aquele resultado, estava TUDO BEM! Tanto que nem me custou deixar lá os 95€ que o exame me custou (quer dizer....custou mas....ESTÁ TUDO BEM!).

Voltei à minha médica de confiança, confirmou o diagnóstico e agora sei que, um dia, até posso vir a ter dificuldades em engravidar mas ao menos, por um cepto uterino não será. 

Se voltarei a ter esta postura perante um diagnóstico forte, determinante? Sempre. Não fosse assim e eu teria desperado em vão. Não tivesse a minha mãe contestado um médico e teria morrido com um cancro. E mais N histórias podia eu ter aqui contado.

Quero sinceramente acreditar que ela "médica" errou e que as pacientes que segue na sua clínica têm infelizmente motivos para lá estar. Quanto a mim, encontrei-a no outro dia, a passar à porta do meu trabalho e confesso que me apeteceu dar-lhe um pequeno aperto do pescoço mas contive-me, afinal, comigo está tudo bem.

Espero que este relato ajude ou sirva de exemplo para alguém. 

Sarah





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