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Experimentalista

Um blog onde exponho publicamente as pipas de massa que já gastei, dividindo-as em "bem empregues" e "desgostos"

02
Mar18

Nunca te descuides contigo

Sarah

....nem com o teu pai, mãe, irmão, sobrinho,etc.

 

A meados de Janeiro levei um estaladão da vida, daqueles com as costas da mão, que nos fazem rodopiar e quase cair ao chão.

O meu pai não andava bem, não aguentava nada no estômago, vomitava, sei lá eu mais. Fez exames, insistimos para que fosse ao hospital, para que ficasse internado e, ao fim de 12 horas numa maca num corredor frio e cheio de gente doente, ficou internado.

Seguiram-me mais exames, mais espera, telefonemas diários "o resultado? já o tens? liga outra vez! os médicos precisam saber o que fazer". Souberam: era um adenocarcinoma gástrico. Era mau, muito mau, e podia ser ainda pior, dependendo do local no estômago que sua excelência o cancro, escolhera para confortavelmente levar o meu pai para longe.

Há quanto tempo estaria ali? Meses, mais? E sintomas? Apenas quando ficou grande demais e causou um entupimento no duodeno. Não doía, não picava, ardia, nada, estava calado, sorrateiro, a espera de me levar o meu pai.

No espaço de um mês o meu pai perdeu 13kg, esteve com uma sonda nasogástrica, foi operado, deixou de comer, voltou aos líquidos, aos sólidos, está em casa. E tem estômago. Num caso de "o mal o menos", ao menos o cabrão do cancro soube por-se confortável numa zona que permitiu um corte limpo, a seco, através de 5 buraquinhos feitos na barriga do meu pai.

No espaço de um mês tive tempo para chorar uma vez, no dia em que abri o envelope com o resultado da biopsia. Depois não tive mais tempo, tinha que ser reactiva e proactiva, tinha agora duas casas para tratar, contas para controlar, tinha que pensar se conseguia antecipar o meu casamento, nem que fosse para amanhã! Nem que me case amanhã, mas o meu pai vai, o meu pai entra comigo. Conversa egoísta ou não, se há alguém que, mais do que nos noivos, quer ir a este casamento, é o meu pai.

Passou um mês e tudo parece bem, tudo parece recuperar, depois de um grande incêndio, começamos a ver as pequenas folhinhas verdes a rebentar com as primeiras chuvas. E, por enquanto, ainda me caso em Outubro.

A quem me lê, não se descuidem, não deixem andar, não "vou amanhã ao médico, ou pro próximo mês, sinto-me óptimo". O meu pai também se sentia, até que deixou de sentir.

Cancro (por norma) não dói, não incomoda e não dá sinais, não numa fase inicial, não quando é apenas cortar e estamos limpos.

Não se descuidem.

 

Sarah

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